sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Atenção, senhores passageiros

por Gustavo Maia

Já li e ouvi muitas coisas sobre aeroportos. Geralmente prefiro fugir de rotulações do tipo “aeródromo que dispõe de instalações próprias para os serviços de chegada e partida, carga e descarga e manutenção de aeronaves, assim como de atendimento, embarque e desembarque de passageiros”, por mais precisas e esclarecedoras que elas sejam. Gosto mais da idéia de que esse lugar é uma espécie de portal, um campo de encontros e despedidas, onde acontecem coisas incríveis e começam histórias extraordinárias.
Há quem o encare com outros olhos. “É nada mais nada menos do que minha fonte de renda”, diz o estudante de Turismo e de Jornalismo David Andrade, que, para custear sua vida acadêmica, trabalha como fiscal de pista no Aeroporto Internacional do Recife/Guararapes - Gilberto Freyre. “É um lugar mágico. É como um vírus, ou você contrai ou não”, afirma a sorridente Joana Darc, funcionária da lanchonete Subway do mesmo aeroporto. “É um lugar atemporal, meio sombrio”, explica a professora Tércia Valverde. “É a minha paixão!”, assegura Epitácio Albino, um fanático por aviação.
Estar em um aeroporto é poder presenciar muitas manifestações essencialmente humanas, que contrastam com a imensidão de máquinas e tecnologia necessária para fazê-lo funcionar. Com o perdão da pieguice e dos possíveis clichês, pode-se dizer que, num aeroporto, o térreo, em particular o do Recife, é um piso assassino. Lá a vítima comumente atende pelo mesmo pré-nome: Saudade. As armas mais usadas neste tipo de crime são o abraço apertado e o beijo emocionado. O aperto de mão burocrático e a tapinha nas costas também estão neste rol, sendo, no entanto, menos letais.
No primeiro andar há de se ter muito cuidado ao caminhar, principalmente em frente aos portões de embarque. É que no chão se encontram muitos corações partidos pela dor da despedida. Pisar nos coitados não lhes faria grande favor. Colocá-los numa escada rolante daquelas que só desce é que me parece uma grande sacada, afinal de contas é lá que existe um bom hospital com bons médicos, também conhecidos, respectivamente, como portão de desembarque e passageiros dos vôos que acabaram de chegar.
No segundo andar também se mata. Desta vez a mártir não se chama saudade e sim fome. A função deste piso não é meramente alimentícia. Lá também se pode observar. Aviões que aterrissam, que voam, que esperam; pessoas que andam, riem, lêem, comem, falam, escrevem, coçam, choram; escadas rolantes que descem e sobem; obras de Francisco Brennand que são apenas obras de Francisco Brennand, tanto faz. É um bom piso.


O menino corre com suas perninhas pequenas e ainda um tanto descontroladas. Sua fantasia de Batman se destaca na maré de calças jeans e vestidos não-estampados que invadiu o saguão do térreo. É uma criança de dois ou três anos, não mais que isso, e não entende porque teve que sair da festinha da escola mais cedo só para ir até aquele lugar. Sua mãe, seus dois irmãos, sua tia, o marido dela, os três primos, todos estavam ali. O que eles estavam fazendo naquele lugar frio e tão cheio de gente?
Do portão de embarque Sul sai uma senhora emocionada. Ela não tem nenhuma mala na mão e por isso tem os braços livres para logo envolver num forte abraço a sua filha amada. As duas continuam grudadas por mais de cinqüenta segundos e menos de um minuto, que aí já seria exagero. Dos cumprimentos a uma filha, passa à outra. São quatro beijos estalados, dois em cada bochecha. Em seguida é da neta mais velha o privilégio de tocar na avó que há tantos meses não via. São apenas seis segundos de contato físico.
O menino não pára de correr um instante, é incansável. Puxa a irmã poucos anos mais velha pela camisa e ouve da mãe a ordem: “Venha falar com a sua vó, menino!”. Ele tem coisas mais importantes a fazer. Sua tia o intercepta, o põe braços e pergunta pra onde eles vão viajar depois. “Láááááá pro alto, pras nuvens”, ele responde. “Pra que cidade?”. “Pra cidade que tem os carros”.
Seis minutos após a chegada da avó, chegam as três grandes malas, uma verde e duas pretas. Chega também o avô, um senhor de barriga avantajada e careca lustrosa. “Que farra, hein?”, são as primeiras palavras ditas por ele aos familiares. Novos abraços, mais conversas, muitos beijos. “Ai que coisa boa. Eu tava muito ansiosa”, comenta a avó com uma das filhas. Pode-se cortar a emoção do reencontro no ar. O menino voltou a correr.

A placa está suspensa no ar. Inscritos naquele papel branco estão as palavras “Sr. Marcos Albuquerque Calmon”. Ele chega, não aperta a mão do funcionário que vai levá-lo ao seu hotel e caminha em direção à van da empresa de turismo. Uma mulher grávida está com a sua filhinha, esperando sua sobrinha, Júlia. Ela chega. O abraço não é tão apertado graças às avançadas dimensões da barriga de Tia Val. A sua filhinha é uns quatro anos mais nova que Júlia e está perceptivelmente tímida. “Fala com a Júlia, filha. Fala pra Júlia qual foi a fantasia que você comprou ontem. Fala, filha”, pede a mãe. “Não vou falar”, deve ter pensado a filha, que não abriu a boca para nada nesse mundo.
O casal de namorados, os dois na casa dos 20 anos, não agüentava mais a distância que os separava. Isso é o que se percebe ao vê-la correndo em direção a ele e dando-lhe um caloroso abraço. Beijam-se com paixão, na boca, na bochecha no pescoço, no... Já é hora de ir pra casa.”Ó ele aí, Seu Luís, Seu Luís!”, grita uma mulher espalhafatosa, chamando a atenção de muitos além de Seu Luís, um homem cujo bigode toma quase um quinto da cara. “Tem dez anos que eu não vejo esse homem”, comenta a outra, quase emocionada. Alguns abraços ainda tímidos selam o reencontro da década daquela família. Há cerca de vinte minutos Admo espera a mulher que está voltando de São Paulo. O avião chega. Ela aparece no portão. Se abraçam, não se beijam. Realmente empolgada, ela escolhe a seguinte frase como a primeira a ser ouvida por seu marido sobre sua viagem: “Mas Admo, foi muita aventura. A gente veio num vôo que foi pra Paris! Paris, Admo, Paris!”.

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No aeroporto do Recife, tão facilmente quanto aviões e pessoas podem-se ver malas, mochilas, sacolas ou qualquer outro tipo de bagagem. São diversos os seus estilos, pesos e estados de conservação, assim como os dos seus donos. Desfilam pelos enormes saguões em direção a um dos 64 balcões de check-in: malas com ou sem alça, verde escuro ou verde claro, com um detalhe laranja ou outro marrom, com rodinhas ou, para o desconforto do viajante, não. Há também os viajantes mais desleixados, que abarrotam mochilas velhas e sujas, às vezes até rasgadas e com o zíper quebrado, com seja lá o que for. Roupas, com certeza. Presentes, talvez, nem todos podem ou querem dá-los por aí.
Quem passou pelo Recife no ano passado e portou ao menos um grama de bagagem contribuiu para a incrível estatística que declara o Aeroporto do Recife o quinto mais movimentado em carga do Brasil, com 55.096.769 quilos. O mesmo cidadão também entrou para a história, pelo menos a da Infraero, ao ser um dos 4.188.081 passageiros que viajaram por aqui. Esse número, por sinal, ainda está mais de 800 mil abaixo da atual capacidade do aeroporto, cinco milhões de usuários. Ou seja, ainda há espaço para crescimento.
É muita gente. Tem aquele senhor que, a caminho do portão de embarque, tira um pente do bolso esquerdo da sua camisa e o passa nos poucos cabelos que ainda têm, para depois devolvê-lo ao lugar de origem. Tem também aquele homem que dorme sentado num banco duro que fica em frente ao stand que vende castanhas de caju. Ele tem as pernas cruzadas, a mão direita sobre a esquerda e o seu queixo está perto de tocar o peito. Quando desperta, percebe que está sendo observado, se apruma na cadeira para, menos de um minuto depois, voltar a dormir. Volta à mesma posição.
Lá se pode encontrar até mesmo um menino, dos seus 16 ou 17 anos, que também dorme. É um sono profundo. Tem a boca completamente aberta, pronta para um bom exame odontológico, mão esquerda dentro do bolso esquerdo, cabeça arqueada para trás, quase 90 graus. Sua mochila, rasgada na frente, está ao seu lado. Ao passar por ele, há aquela senhora que olha para trás, pára por um instante, continua o seu caminho e faz com a cabeça um sinal de desaprovação como quem pensa que aquele não era lugar de se dormir daquele jeito. “Será que ele vai perder o vôo? Pra onde ele vai? De onde ele veio?”. Perguntas como essas só seriam respondidas se eu o tivesse acordado. Não o fiz. Nunca saberemos.
Há um homem usando short azul, alpercata de couro, camisa branca, que se alonga na frente do portão de desembarque sul a espera de alguém. Há aquela mulher e aqueles dois homens, que, uniformizados, empurram juntos os carrinhos que foram destinados a receber malas e vez por outra se surpreendem ao sentir uma ou duas crianças sentarem e gritarem em cima deles. “Devagar, devagar!”, a mulher pede. Pedido mais que atendido. Eles param. Quatro segundos depois, continuam. O trabalho deve ser feito. O aeroporto não pára.

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Era uma cena um tanto surreal. Mamãe Noel estava com as coxas de fora, usava uma saia pequena, apertada e vermelha e um cinto (talvez até maior do que a saia) espalhafatoso e preto. Calçava patins de quatro rodas, usava um capacete, coberto por um gorro alvirrubro, e deslizava por entre mesas e cadeiras com um walkie-talkie na mão. Veio até mim e falou: “Boa tarde senhor, deseja alguma coisa?”. Escondendo o meu caderno, pensei: “Só que você não leia o que eu acabei de escrever sobre suas pernas”. “Não, obrigado”, respondi. Sua boca estava pintada de vermelho e uma bandeja estava na sua mão.
“Ei, Mussarela, o rádio num tá pegando mais não”, disse um homem que também deslizava. Não estávamos no pólo norte, mas sim, o Papai Noel chegou e, pasmem, ele está magro. Magro mesmo, atlético, diriam outros. Noel se dirigiu a sua companheira de longa data chamando-a por um tipo comum de queijo. Curioso. Estamos a 34 dias do Natal e há uma caneta pendurada no seu pescoço, provavelmente para anotar os pedidos de presentes das crianças de todo o mundo. Não. No aeroporto do Recife o Papai Noel não entrega presentes, e sim cardápios.

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Alguns fatos curiosos são descobertos numa breve análise do sistema aeroportuário. Aproximadamente 75% dos homens vão ao aeroporto usando calças. As pessoas preferem usar as escadas rolantes - são quatro - aos elevadores - são dois. Os elevadores demoram mais. A cada cinco minutos, eu garanto, você verá alguém correndo de cá para lá. Os alto-falantes não se cansam nunca de repetir números de vôos ou de pedir atenção aos “senhores passageiros” e aos “dear passengers”. Há um tipo de mulher que fica perto dos portões de entrada e saída do aeroporto, no térreo, que sabe falar apenas uma frase: ”Táxi, senhor?”. Aliás, desculpem-me, quase fui injusto com a capacidade de oratória de tão educadas garotas. Elas também falam aquela outra: “Táxi, senhora?”.
Compradores em lojas de aeroportos estão sempre com pressa, mesmo quando não precisam estar. Talvez seja porque, numa viagem, o aeroporto é a última oportunidade para se comprar o souvenir, aquela lembrancinha. A área de compras e lazer do aeroporto do Recife foi totalmente pensada - na mudança do antigo terminal para o novo, em 2004 - dentro do conceito de aeroshopping, que o transformou num centro de negócios, conforto, produtos e serviços. “As pessoas geralmente passam muito tempo aqui dentro da loja”, observa Maria Campos, vendedora da loja Romar Artesanato. Lá se compra, mais do que qualquer outra coisa, uma camisa com a bandeira de Pernambuco ou uma daquelas peças coloridas de artesanato regional expostas na estante que fica do lado esquerdo da loja. Só um item é mais visto nas mãos dos passageiros do que os dois acima citados: o bolo de rolo da Casa dos Frios. Coisa mais pernambucana não há.
Se há um lugar no aeroporto - ou fora dele, se assim preferirem os puristas – que traz dentro de si histórias singulares e curiosíssimas, ele atende pelo nome de edifício-garagem ou até mesmo pelo seu apelido, estacionamento. Lá, por exemplo, existe um Corsa branco, que há mais de um ano ocupa uma das 2080 vagas do local. “O que aconteceu foi que o cara viajou, morreu e ninguém veio buscar o carro. Agora a multa pra ele sair daqui já deve estar umas três vezes o valor do Corsa. Mas também, ele não vai voltar dos mortos só pra reclamar um carrinho, né?”, explica o funcionário que não quer ter seu nome escrito em reportagens ou coisas do tipo. O próprio nos conta que, não raras vezes, aparecem pessoas dispostas a fazer o estacionamento de motel. Sim, de motel! O casal escolhe um dos três pavimentos, geralmente o menos movimentado, e manda ver. “Teve uma vez que um funcionário flagrou um cara lá no bem bom com a mulher e ele ainda teve a cara de pau de pedir mais dez minutinhos, acredita?”. Acredito.

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Talvez do mirante não fosse possível vê-la em toda a sua extensão, mas isso não significava que ela não estava lá: a maior pista de pouso e decolagem do Nordeste (!) e seus enormes 3.305 metros. A todo instante subiam e desciam aeronaves, grandes, médias e pequenas. Para se ter uma idéia da dimensão desse fluxo basta saber que, só no ano passado, passaram por lá 59.781 aviões. Na última meia década, 285.591. Alheios a esses dados, existem pessoas que simplesmente gostam de ver aeronaves. No mirante, às 14h43 de uma sexta-feira, 47 pessoas, cada uma com a sua devida motivação, estavam lá. O engraçado é que nesse minuto só o que se movia na pista eram os carros da Infraero, funcionários, que jogavam malas dentro dos aviões e uma escada, que era puxada por um mini-trator. Uma daquelas pessoas era o representante de produtos químicos Epitácio Albino, um homem de 59 anos bem aparentes.
Seus olhos têm um ar sério e suas sobrancelhas são arqueadas numa posição típica de vilão de desenho animado. Encostado na barra de ferro que separa pessoas do vidro, camisa de manga comprida com os botões abertos até a metade da barriga, Epitácio parece admirado. Na verdade, está. Aeronaves têm um significado enorme na sua vida. “Sou um fanático por aviação. Alucinado!”, diz. Lá pro ano de 1972 sua admiração começou a tomar ares de paixão. Um grande amigo o incentivou a fazer um curso e um teste para ser radiotelegrafista de vôo, profissão surgida quatro décadas antes e hoje desaparecida graças à evolução tecnológica. Fez o curso e fez o teste. O amigo passou e ele não. Ironia do destino, só pode. Desde aquele ano viajou muito e conheceu muitos aeroportos pelo Brasil. “O Galeão, do Rio, é canhão (ou seja, bom, legal, maravilhoso). Do Nordeste conheço quase todos e o do Recife é o mais bonito. Aliás, é o melhor do Norte-Nordeste!”, afirma com veemência. O do Recife ele realmente conhece: “Sei todos os horários de cor, já estou completamente acostumado com a rotina daqui. Depois da reforma de 2004 mudou da água pro vinho”.
Sua admiração é tanta que, não poucas vezes, ele vai ao aeroporto exclusivamente para observar aviões pousarem e decolarem. Essa mania já lhe rendeu a rotulação de “abestalhado”, mas ele não liga. O que importa é que, sempre que houver folga do trabalho, ele possa passar uma ou duas horinhas “contemplando o que o homem fez”. Essas visitas já acontecem há muitos anos e tem a freqüência de aproximadamente uma vez a cada dez dias. Com tanta experiência, ele tem propriedade para falar o que quiser sobre aeroportos. E fala: “É um absurdo o que acontece aqui. Os vôos vêm todos em bloco, em alguns horários chega todo mundo junto. Aí é claro que vai ter engarrafamento, né? Apesar de ser muito bom, ainda falta infra-estrutura aqui porque ele foi inaugurado às pressas, principalmente de trânsito. Até hoje não terminaram tudo”.
A “afinidade com os aviões”, como ele mesmo gosta de dizer, não parece ser um daqueles que é passado de pai pra filho e assim por diante. Dos seus “três, aliás, quatro” filhos, nenhum é “adepto da aviação”. A mulher também não simpatiza tanto assim. Quando ainda eram crianças, ele até os trazia, mas agora prefere vir sozinho, se encostar com tranqüilidade no ferro que divide o homem do vidro e torcer para que, com uma pista tão grande (“pra que tão grande?”, ele se pergunta), os aviões resolvam decolar na sua frente.

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De pé, a professora Tércia Valverde pensava que aquela tinha sido uma boa semana. A visita de sua avó ao Recife lhe fez bem. Não a via há muito tempo e agora pôde passar cinco bons dias ao seu lado. Tércia, que é natural de Feira de Santana – “a segunda maior cidade baiana!” - e se mudou para o Recife em março deste ano por causa do Doutorado em Teoria da Literatura que faz na UFPE, além de pensar olha. Seus olhos procuram a silhueta de Regina Costa - uma velhinha de 81 anos que gosta de pintar por hobby - através do vidro do chamado mirante, no segundo andar. Mira fixamente o finger do portão 12, por onde já deveriam ter caminhado os passageiros do vôo da GOL com destino a Salvador, capital da Bahia. Atrasado. “Minha vó foi premiada. Na vinda foram três horas de relógio e agora, coitada, já tem meia hora”, fala apreensiva. “Engraçado, esse eu ano eu já viajei algumas vezes e nunca atrasou”, completa.
Ela só espera da confirmação de que nada deu errado com o vôo da avó materna para sair do aeroporto e voltar ao batente. Já está lá há mais de uma hora. Em menos de dez minutos checa o quadro de vôos três vezes. O que terá acontecido? Inquieta, ela confessa que sempre achou o aeroporto meio sombrio. “É um lugar atemporal, como um shopping, por exemplo. Se você estiver dentro de um há muito tempo não dá pra saber se é manhã ou noite”, diz Tércia. Se o avião não aparecer daqui a dez minutos, algum funcionário da GOL Linhas Aéreas Inteligentes terá que responder algumas perguntas a uma neta nervosa.
Responder perguntas, aliás, é algo que Tércia gosta de fazer. Não é a toa que escolheu ser professora. À medida que responde às minhas, ela nota que não as anoto no meu caderno e explica, num tom bem didático, que, já que é um trabalho acadêmico, eu deveria ter digitado as minhas questões previamente e registrado as respostas, “eu posso até falar mais devagar se você quiser”. Eu agradeço a sugestão, mas explico que prefiro deixar a conversa fluir e depois escrever. Acho melhor assim.
É só quando um avião da TAM aterrissa com sucesso e toma o lugar que de fato e de direito seria do “avião de sua avó” que Tércia perde a pouca paciência que ainda lhe restava. Não, ela não gritou, esperneou ou rodou a baiana. Apenas pediu-me licença e foi resolver o que tinha que ser resolvido. Era só mais um dos atrasos que corriqueiramente ocorrem nos aeroportos e desagradam a gregos e baianos.

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No aeroporto, além de entrar em aviões, sair deles, despedir-se, tomar um sorvete ou simplesmente trabalhar, se espera. Este é um dos lugares em todo o mundo no qual a espera é mais institucionalizada. Não apenas por causa dos eventuais atrasos, mas também pelo protocolo da aviação que diz “chegue sempre uma hora antes para fazer check-in em vôos domésticos e duas para internacionais”. Sabe-se disso desde sempre e ainda se pergunta o que fazer para acelerar o tempo.
É simples. Há os passatempos usuais para qualquer ocasião desse tipo. Leia um bom livro, uma revista interessante, preencha os quadradinhos das palavras cruzadas, exercite seu cérebro com Sudoku, coma, fale, ouça, durma. Se tiver dinheiro, abra seu laptop e aproveite o serviço de internet wireless para, como fizeram os três homens paulistas que estavam sentados no segundo andar do terceiro, gargalhar ao ver vídeos do youtube. Cheque seu e-mail. Se por acaso você beber, faça como fizeram os integrantes de sete das treze mesas ocupadas em frente ao restaurante Romar – Café Regional, beba uma ou quatro cervejas. Se você for alcoólatra, beba um refrigerante ou um suco.
Preste-se ao ridículo de enfiar a cabeça num buraco e pedir para alguém lhe fotografar como Lampião ou Maria Bonita. Você ainda rirá com essa foto um dia. Faça como fizeram metade das pessoas que saíram do elevador às 18h38 de uma sexta-feira, passe pelos quadros de Fernando Areias e não os compre. Repita o gesto com outras obras de arte ou com artigos das mais de 15 lojas que existem no aeroporto. Se fumar, páre. Se não conseguir, se aventure com o seu cigarro até o habitat dos taxistas, do lado de fora, e talvez você dê a “sorte” que eu dei: encontrar um tragicômico tumulto entre um homem que se atreveu a colocar o carro na frente de um motorista de táxi, recebeu uma buzinada e quis, todo estabanado, partir pra cima de alguém. No meio dessa bagunça você pode até ouvir frases como “o taxista é sempre o último a chegar e o primeiro a apanhar” ou “que boy idiota da porra!”.

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São tantas culturas diferentes personificadas por todos aqueles homens e mulheres distintos que é preciso haver um guia, uma luz no começo do túnel de descobertas que é uma viagem. No aeroporto essa luz pode ser encontrada no box de informações turísticas da Prefeitura da Cidade do Recife. “Welcome. Bienvenido. Bienvenue. Benvenuto. Willkommen. Bem-vindos ao Recife”, informa um dos painéis vistos na entrada. Os olhos dos turistas são logo invadidos por oito lindas imagens - fotos devidamente photoshopadas, é bem verdade - de Fernando de Noronha, Porto de Galinhas, Recife à noite, Galo da Madrugada, Marco Zero, Olinda, Boa Viagem e Coroa do avião. Há como não ficar encantado com Pernambuco?
Pedir informações não é a única atividade daqueles que as querem. Ao prostrar-se em frente ao balcão, afloram outros interesses, talvez despertados pela simpatia das recepcionistas. É o caso do DJ Christopher, um austríaco bronzeado cuja idade há pouco passou da casa dos cinqüenta. Ele conversa com Ana Catarina num português que é, no mínimo, estranho. Pede-lhe informações sobre qual ônibus pegar para ir ao seu hotel. Depois, quando a outra recepcionista, Ana Manoela, com ‘o’, lhe diz que “Aninha também fala alemão”, o tom do papo muda consideravelmente. Ele se aproxima da mulher de 21 anos que está lhe atendendo e, em alemão, lhe diz que ela é muito bonita. Acostumada a essas cantadas baratas, sem corar, Aninha lhe pergunta no que mais pode ajudá-lo. “Indo a NOX (nome de uma boate em Boa Viagem) comigo hoje à noite”, ele responde. “Muito obrigado, mas não”, ela replica. “Que homem folgado”, comenta ela alguns segundos depois que ele passa pela porta de ferro e vidro.
Uma vez um paulista meio hippie apareceu por lá perguntando como comprar uma passagem pra voltar pra casa. “Onde o senhor mora?”, “Agora na rua, mas antes morava em São Paulo”, “O senhor quer viajar de ônibus ou de avião?, Guarulhos ou Congonhas?”, “Tanto faz, mas o problema é que eu não tenho dinheiro”, “Desculpe, mas receio que assim não será possível te ajudar”, “Mas aqui não é do box da Prefeitura?”, “É”, “E aquele negócio de ‘a grande obra é cuidar das pessoas’?”. Silêncio constrangedor. Ele sai.
A menina dança balé atrás do balcão. Treina os passos aprendidos nas aulas noturnas que freqüenta às terças, quintas e sextas na Academia Fátima Freitas. Ao avistar uma pessoa de nacionalidade ainda desconhecida ela pára. É brasileiro, veio de Goiânia e está desnorteado. Apenas três palavras definem seu destino no Recife: “Pousada das Piabas”. As meninas tentam ajudá-lo, mas sem dados mais precisos fica difícil. Sua empresa o mandou para cá e ele só sabe que vai ficar na Pousada das Piabas. Coitado. No banco de dados não existe nenhuma Pousada das Piabas. Um dia ele se acha. Ou não. O aeroporto também é um lugar de gente perdida.

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Trabalhar num aeroporto parece ser bom. Ao menos é o que se sente após ouvir Daniel Rodrigues, Ana Catarina Maia e Joana Darc contarem suas jornadas. O primeiro, que é funcionário da Receita Federal, acha que, “apesar de ter alguns problemas gerados pela inauguração às pressas como uns vazamentos de descargas e uns mosquitos de vez em quando, é muito melhor trabalhar no aeroporto do que na rua. Aqui presume-se que as pessoas tenham uma conduta melhor, sejam mais educadas, elitizadas”. Tem também o fator temperatura, de muita importância numa cidade tão tropical como Recife, que é um ponto a favor e outro contra o aeroporto, artificialmente climatizado. “É muito bom ficar nesse friozinho o dia todo, mas também não tem garganta e pele que agüentem”, afirma Daniel.
“Eu adoro trabalhar aqui. Tem tudo que eu preciso: estacionamento seguro, farmácia pra comprar band-aid para os meus pés, desconto para funcionários em quase todos os restaurantes, tem lugar melhor?”, afirma Ana Catarina, de 21 anos, que trabalha no box de informações turísticas. Falando assim, realmente, parece maravilhoso. A localização, na Imbiribeira, a 11km do centro e a cinco minutinhos da sua casa, também é muito conveniente.
Mas ninguém se mostra tão entusiasmada quanto Joana Darc Sem Apóstrofo Por Favor. “Eu a-do-ro trabalhar aqui!”, fala com sua voz doce e ao mesmo tempo firme. Completa: “É um lugar mágico. É como um vírus, ou você contrai ou não. É um dos únicos lugares do mundo que fica aberto, 365 dias por ano, nunca pára!”. O seu sonho é continuar ali o resto da vida profissional. Não na Subway, onde atualmente trabalha porque “a gente tem que ganhar dinheiro, não é?”, mas como comissária de bordo. Após um teste mal-sucedido o sonho foi adiado, mas, segundo Joana, por pouco tempo. Quando lhe pergunto se ela ainda pensa em seguir carreira de aeromoça ele me responde com um seguro “eu não penso, eu vou.” O seu casamento com o local de trabalho é tão pleno que inúmeras vezes ela ou chega mais cedo ou fica até depois do expediente para conversar com os amigos que faz durante o dia de atendimento, sanduíches e refrigerantes.
Um exemplo de simpatia, Joana com certeza espalha um pouco da sua felicidade contagiante pelo mundo inteiro. É difícil esquecer-se do seu jeito único de tratar o freguês. A sua explicação, no entanto, surpreende: “Eu procuro atender o cliente com a maior alegria e leveza possíveis, até porque essa pode ser a última refeição dele, quem sabe se o avião vai cair?”.

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[modo irônico ligado] Eis o resultado de meses de trabalho árduo, discussões teóricas profundas e de uma transmissão de conhecimento (via telepatia) extraordinária. [modo irônico desligado]

Antes que alguém se pergunte "mas eles não estudam Jornalismo? Então porque estão escrevendo assim, tão... estranho?", eu explico: a proposta era que nós, alunos do quarto período de Comunicação Social da UFPE, fizéssemos uma reportagem sob os preceitos do Jornalismo Literário. O que é isso? Também explico. Ou melhor, deixo o wikipedia fazer isso por mim:

É uma especialização do jornalismo feita com a arte da literatura. Também conhecido como Literatura não-ficcional, Literatura da realidade, Jornalismo em profundidade, Jornalismo Diversional, Reportagem-ensaio, Jornalismo de Autor.

A inserção deste modelo parte de uma preocupação constante em fazer um jornalismo que revele um mundo subjacente àquele encontramos nos noticiários. Onde a notícia utiliza-se da perspectiva subjetivista, elemento exaltado no texto do Jornalismo Literário, em complemento ao texto-objetivo proporcionado pelo Lead, se fez necessária a partir do momento que “o uso de técnicas da literatura na captação, redação, edição de reportagens e ensaios jornalísticos” pode obter uma minuciosa observação da realidade.

Aproveitem, comentem, critiquem, leiam. Façam o que ele não fez.
Não é preciso, no entanto, dar nota. Isso ele já fez. Ou não.

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